O aumento dos casos de câncer entre adultos jovens tem intrigado médicos e pesquisadores em diferentes partes do mundo. Agora, um novo estudo aponta uma possível peça para ajudar a compreender esse fenômeno: gerações mais recentes podem apresentar sinais de envelhecimento biológico acelerado.
Pesquisadores da Washington University School of Medicine, em St. Louis, analisaram dados de mais de 150 mil pessoas do Reino Unido e dos Estados Unidos e encontraram uma associação entre envelhecimento biológico acelerado e maior ocorrência de determinados tipos de câncer em idades mais jovens.
O estudo foi publicado na revista científica Nature Medicine e analisou informações coletadas ao longo de aproximadamente 15 anos.
Ter 35 anos não significa que seu organismo tenha a mesma idade
Um dos pontos centrais da pesquisa está na diferença entre idade cronológica e idade biológica.
A idade cronológica é simples: representa quantos anos se passaram desde o nascimento.
Já a idade biológica procura avaliar como o organismo está envelhecendo de fato, utilizando diferentes indicadores relacionados ao funcionamento e ao desgaste do corpo.
Isso significa que duas pessoas com exatamente a mesma idade podem apresentar condições biológicas diferentes.
Uma delas pode possuir sinais compatíveis com um envelhecimento mais lento, enquanto outra pode apresentar alterações associadas a um organismo biologicamente mais envelhecido.
Geração dos anos 90 chama atenção
Os pesquisadores encontraram diferenças importantes entre as gerações analisadas.
Pessoas nascidas na década de 1990 apresentaram maior diferença entre idade biológica e cronológica quando comparadas a participantes de gerações anteriores, incluindo aqueles nascidos nos anos 1960.
A descoberta levanta uma questão que deverá ser investigada em novos trabalhos: por que algumas gerações mais jovens parecem estar envelhecendo biologicamente mais rápido?
A resposta ainda não está fechada.
Alimentação, obesidade, sedentarismo, qualidade do sono, tabagismo, consumo de álcool, alterações metabólicas e fatores ambientais estão entre elementos que podem influenciar a saúde e o envelhecimento do organismo.
Envelhecimento acelerado aparece associado ao câncer precoce
A parte mais preocupante do levantamento surgiu quando os pesquisadores compararam os sinais de envelhecimento com os diagnósticos de câncer.
O envelhecimento biológico acelerado apareceu associado a cerca de 15% mais probabilidade de ocorrência de câncer sólido de início precoce.
Os pesquisadores também observaram relações diferentes dependendo do sistema do organismo analisado.
Sinais de envelhecimento acelerado do sistema imunológico foram relacionados ao câncer de pulmão em pessoas mais jovens, enquanto alterações relacionadas ao tecido adiposo apareceram associadas ao câncer colorretal.
Existe, porém, uma diferença fundamental entre associação e causa.
Os resultados não permitem afirmar simplesmente que envelhecer biologicamente mais rápido provoca câncer. Eles mostram uma relação estatística que precisa continuar sendo investigada.
Câncer colorretal preocupa pesquisadores
O câncer colorretal aparece entre os principais pontos de atenção.
De acordo com os dados apresentados no levantamento, em países como Austrália, Canadá, Reino Unido e Estados Unidos, pessoas nascidas na década de 1990 apresentam risco de câncer colorretal de início precoce significativamente maior quando comparadas às nascidas nos anos 1960.
Em determinadas comparações, o risco aparece pelo menos quatro vezes maior.
O Brasil não participou da análise. Por isso, não é possível simplesmente aplicar os mesmos números à população brasileira.
Ainda assim, o crescimento de determinados cânceres entre pessoas mais jovens tornou-se um importante objeto de investigação internacional.
Casos antes dos 50 anos aumentaram
O cenário não preocupa apenas por causa desse estudo.
Dados internacionais citados pelos pesquisadores mostram crescimento dos diagnósticos de câncer antes dos 50 anos nas últimas décadas.
Esse movimento desafia uma percepção bastante comum de que o câncer seria uma doença quase exclusiva da população mais velha.
Embora a idade continue sendo um importante fator de risco para diversos tumores, alguns tipos da doença estão aparecendo com maior frequência entre adultos jovens.
Descobrir o motivo tornou-se uma prioridade.
Descoberta pode ajudar na prevenção
Uma das possibilidades abertas pelo estudo está justamente na prevenção.
Se os cientistas conseguirem identificar com precisão pessoas que apresentam envelhecimento biológico acelerado, esses indicadores poderão futuramente ajudar a determinar quem precisa de acompanhamento mais próximo.
Segundo a epidemiologista Yin Cao, uma das responsáveis pela pesquisa, identificar essas pessoas antes do aparecimento dos sintomas pode abrir espaço para intervenções mais precoces.
Isso não significa que exista atualmente um exame único capaz de prever quem desenvolverá câncer.
A pesquisa aponta um caminho que ainda precisa ser aprofundado e validado.
O que pode estar acontecendo com as novas gerações?
Talvez essa seja a maior pergunta deixada pelo estudo.
O estilo de vida mudou profundamente nas últimas décadas.
Alimentação, rotina de trabalho, exposição a fatores ambientais, sedentarismo, obesidade e padrões de sono sofreram grandes transformações.
Agora, pesquisadores tentam descobrir até que ponto essas mudanças podem estar influenciando não apenas o desenvolvimento de doenças, mas a própria velocidade de envelhecimento do organismo.
A descoberta reforça uma ideia cada vez mais importante para a medicina:
a idade registrada na identidade conta apenas uma parte da história.
Entender como o organismo está envelhecendo pode se tornar uma ferramenta importante para identificar riscos mais cedo e desenvolver novas estratégias de prevenção.
E diante do crescimento dos diagnósticos de câncer entre adultos jovens, compreender essa diferença deixou de ser apenas uma curiosidade científica.

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