A campanha eleitoral de 2026 começou com um desafio que pode mudar completamente a forma como os brasileiros consomem conteúdo político: a inteligência artificial.
Vídeos capazes de reproduzir o rosto de candidatos, clonagem de voz, imagens fabricadas e conteúdos praticamente indistinguíveis de gravações verdadeiras colocam a tecnologia no centro da disputa eleitoral.
O problema não é apenas produzir uma montagem. Com as ferramentas atuais, tornou-se possível criar em poucos minutos um vídeo aparentemente real de um político pronunciando uma frase que nunca disse.
E quando esse material chega ao WhatsApp, Instagram, TikTok, X ou Telegram, milhões de pessoas podem recebê-lo antes mesmo de qualquer desmentido.
TSE estabelece regras para inteligência artificial
O Tribunal Superior Eleitoral atualizou as normas para as eleições de 2026 e estabeleceu regras específicas para conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial.
A utilização de conteúdo sintético em propaganda eleitoral exige identificação explícita, destacada e acessível informando que aquele material foi fabricado ou manipulado e indicando a tecnologia utilizada.
As regras também estabelecem restrições específicas para conteúdos sintéticos e permitem atuação da Justiça Eleitoral diante de violações.
O próprio TSE reconhece que o uso irregular de conteúdo gerado ou modificado por IA pode, dependendo das circunstâncias, configurar uso indevido dos meios de comunicação e até abuso de poder político ou econômico.
Deepfake vira preocupação
O ponto mais delicado são os chamados deepfakes.
A tecnologia permite reproduzir artificialmente imagem, rosto, movimentos e voz de uma pessoa.
Imagine um vídeo aparentemente mostrando um candidato defendendo uma medida extremamente impopular.
O político nunca pronunciou aquelas palavras.
Mas sua voz parece verdadeira.
Seu rosto parece verdadeiro.
Se o vídeo for publicado próximo da votação e alcançar milhões de pessoas, o estrago político poderá acontecer antes que seja possível esclarecer que tudo foi produzido artificialmente.
Esse é um dos grandes desafios da eleição de 2026.
Voz também pode ser clonada
O problema não está limitado aos vídeos.
A inteligência artificial consegue reproduzir vozes com enorme semelhança.
Um áudio falso atribuído a um candidato pode circular rapidamente em grupos de mensagens e ser apresentado como vazamento de uma conversa particular.
A preocupação chegou ao ponto de o TSE firmar acordo de cooperação com a ElevenLabs, empresa especializada em geração de voz por IA, para enfrentar clonagens e deepfakes durante as eleições.
Últimos dias antes da votação terão restrição ainda maior
O TSE criou uma proteção adicional para o período mais sensível da eleição.
Nas 72 horas anteriores à votação e até 24 horas depois do encerramento do pleito, ficam proibidas a publicação e republicação de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidato ou pessoa pública, mesmo quando o conteúdo estiver devidamente identificado.
A preocupação é evidente.
Um deepfake publicado poucas horas antes da abertura das urnas poderia viralizar sem que o candidato atingido tivesse tempo suficiente para reagir.
Eleitor terá de desconfiar dos próprios olhos
Durante décadas, uma fotografia ou gravação servia como forte evidência de que determinado acontecimento realmente havia ocorrido.
Em 2026, isso já não é suficiente.
O eleitor precisará observar a origem do conteúdo, procurar a publicação original e verificar se veículos confiáveis ou os próprios envolvidos confirmaram aquela informação.
Principalmente quando aparecer um vídeo explosivo poucas horas antes da votação.
O TSE mantém ainda um sistema para recebimento de alertas sobre desinformação eleitoral.
IA também pode ser usada legalmente
Nem todo uso de inteligência artificial durante uma campanha é proibido.
A tecnologia pode ser empregada na criação e edição de determinados conteúdos, desde que sejam respeitadas as exigências eleitorais, inclusive as regras de identificação quando aplicáveis.
Portanto, a discussão não é simplesmente proibir inteligência artificial.
O desafio é impedir que ela seja utilizada para enganar o eleitor sobre algo que determinado candidato fez ou disse.
Eleição de 2026 pode marcar uma virada
A inteligência artificial promete transformar definitivamente as campanhas eleitorais.
Ela pode reduzir custos, acelerar a produção de conteúdo e criar novas formas de comunicação. Ao mesmo tempo, oferece ferramentas extremamente poderosas para produzir desinformação em escala.
E existe um agravante: a tecnologia evolui mais rápido do que a capacidade das instituições de identificar cada conteúdo falso que começa a circular.
A eleição de 2026 poderá, portanto, exigir um cuidado que antes parecia coisa de filme.
Não basta mais perguntar se um vídeo parece verdadeiro. A partir de agora, será preciso perguntar se aquilo realmente aconteceu.

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